A segunda Encarnação do Verbo

 

Em algum momento do século XX o mundo converteu-se, talvez irreversivelmente, ao materialismo. Em algum momento, de forma individual e coletiva, dissemos adeus ao espírito, engolimos fundo e forçamos sobre nós mesmos a maturidade de reconhecer que tudo que existe é a matéria, a realidade física e palpável, o pão-pão, terra-terra. Tudo que foi escrito e pensado sobre o invisível, o imaterial e o espiritual merece aparentemente apenas uma gigantesca errata no registro do pensamento humano: ERRÁMOS QUANDO DISSÉMOS QUE EXISTE UMA REALIDADE ALÉM DO MUNDO FÍSICO.

 

Desculpem a nossa falha e os problemas que ela pode ter causado. Hoje em dia os sábios são o que sabem que todos os aspectos da experiência humana podem ser reduzidos à atividade química e elétrica do cérebro.

 

Como sustentaram Jung e, de modo diferente, Freud, metade dos problemas psicológicos da humanidade podem ser traçados à nossa difculdade em lidar com o trauma de perder a confiança no espiritual e cair de boca no cimento frio da realidade material. Porque, não importa o quão espiritual você acredite ser, estamos todos condicionados a acreditar que o que de fato existe é estritamente o físico, o cru, o mensurável, o adquirível – se for virtual, pode ser pelo menos experimentado pelos sentidos.

 

Essa reviravolta é no mínimo curiosa, já que durante a maior parte de cinco mil anos de sua história civilizada o homem brincou com a idéia do espírito. Éramos mais ingênuos, talvez, e criamos para a realidade compartimentos adjacentes e invisíveis, vastíssimos repositórios de deuses, demônios e idéias.

 

PARA O IDEALISTA, AS IDÉIAS PRECEDEM A REALIDADE MATERIAL.

 

Antes da conversão em massa ao materialismo a humanidade perdia ao que parece muito tempo e valiosos recursos – não apenas na sua obsessão com Deus e deuses, mas com coisas inadmissíveis como a filosofia e a metafísica, matérias austeramente dedicadas ao estudo do que não pode ser estudado.

 

Havia curiosidades como a alma e o espírito – “realidades” separadas da realidade, independentes dela e de alguma forma superiores a ela.

 

O melhor exemplo de uma visão de mundo que a conversão ao materialismo tornou obsoleta e incompreensível talvez seja o Mundo das Idéias de Platão. Hoje chamamos sua doutrina de Idealismo, mas Platão cria que as Idéias são mais reais do que o que costumamos chamar de Coisas. Na verdade, ele sustentava que as coisas emprestam a sua realidade das idéias puras, que vivem num mundo superior e à parte, uma biblioteca de recursos fora do tempo. Uma maçã é redonda porque compartilha imperfeitamente da idéia pura da Redondeza, é vermelha porque compartilha do ideal da Vermelhidão, que reside em estado puro apenas no perfeito mundo das idéias.

 

Resumindo, Platão e todos que o seguiram, inclusive cristãos, muçulmanos, poetas e hare-krishnas, criam na hoje obsoleta noção de que as idéias precedem a realidade material. Para o idealista, e hoje não resta um sequer, as idéias tem precedência sobre o universo físico – as idéias são reais, o mundo é acessório, subalterno, talvez residual.

 

Para o autor do evangelho de João, tanto a Criação quanto a Encarnação seguem a lógica do idealismo: idéias primeiro, coisas depois. Primeiro havia a Idéia (o Verbo): o mundo foi feito por ela e sem ela nada do que foi feito se fez. Mais tarde, e quase contingencialmente, o Verbo se fez Carne – a Idéia se fez Coisa. As idéias têm precedência sobre a realidade material.

 

PARA O MATERIALISTA, A REALIDADE MATERIAL PRECEDE AS IDÉIAS.

 

Hoje em dia, tudo que lemos, fazemos e pensamos parte da noção oposta. Graças ao brilho ofuscante do iluminismo científico, sabemos que as idéias não tem qualquer existência real fora do cérebro. Não apenas Deus e deuses estão indefinidamente cancelados, mas filosofias e poesias e especulações e monstros e sonhos são apenas curiosas excreções da atividade cerebral.

 

Sabemos hoje, ao contrário do obsoleto Platão e do velho apóstolo João, que a realidade material precede as idéias. A Coisa real gera as Idéias irreais. O Verbo foi reduzido a Carne, mas dessa vez por outro caminho e sem ter qualquer idéia do caminho de volta.

 

Paulo Brabo
Fonte: A Bacia das Almas

apostasia cotidiana

por: Joaquim Tiago

Apostatar é uma ação de abandono do que se acreditava e não acredita mais. É como se não fizesse mais sentido crer no que se crer os crentes de uma religião, de uma filosofia ou de um grupo. Há muitos grupos de alguns que estão agindo desse forma em nossos dias. Outros tantos tem transferido sua fé para deuses contemporâneos, a começar pelo príncipe deste mundo, o capital financeiro, os valores monetários, a “bufunfa”.

O deus deste mundo egoísta consegue com muito mais “razão” e poder resolver os problemas dos que apostataram. O valor capital financeiro trouxe consigo a religião do consumo e o extremo do prazer imediato e sem compromisso, como a sensualidade e o sexo desregrado.

Existem novas religiões neste sistema, a religião do consumo é a filosofia do prazer. Os adoradores de si mesmo estão se poupando em tudo abandonado a fé na verdade para ter fé em si mesmo e nos deuses do espetáculo.

O que vc quer?

A fé não responde mais.

Nos temos uma para te vender.

 

“MAS o Espírito expressamente diz que nos últimos tempos apostatarão alguns da fé, dando ouvidos a espíritos enganadores, e a doutrinas de demônios;” (I Timóteo 4 : 1)

 

“como ser cristão e acreditar na evolução”

A conciliação possível entre cristianismo e evolução

Amanhã faz exatamente 150 anos que A origem das espécies, de Charles Darwin, foi lançado. Esse livro afetou a humanidade como poucas outras obras ao longo da história, e para muitos se tornou sinônimo da incompatibilidade entre ciência e religião. Felizmente, de uns tempos para cá alguns cientistas competentes em seus campos, e que são pessoas religiosas, passaram a construir uma meio-termo, defendendo Darwin dos ataques de fundamentalistas religiosos e defendendo a religião dos ataques de fundamentalistas científicos. Karl Giberson, presidente da Fundação BioLogos, é um desses autores. Cristão evangélico, Ph.D. em Física, professor universitário, Giberson lançou Saving Darwin (HarperOne, 248 p. Meu exemplar foi comprado na Amazon) e veremos que não foi sem razão que o Washington Post considerou a obra como um dos melhores livros de 2008. É com a resenha de Saving Darwin que o Tubo de Ensaio abre a semana dedicada a Charles Darwin e aos 150 anos de seu livro.

Como não podia deixar de ser, Darwin é o personagem principal do capítulo inicial do livro. O Darwin de verdade, e não as lendas criadas em torno dele, seja a história piedosa de uma reconversão no leito de morte e rejeição de sua teoria, seja a do sujeito que tinha como objetivo de vida “matar Deus”. O verdadeiro Charles Darwin, a bordo do Beagle, viu que o paradigma que explicava a vida na Terra tinha suas falhas (curiosamente, esse paradigma, o de William Paley, era muito parecido com o Design Inteligente que temos hoje), e trabalhou em cima disso. O resultado todos nós sabemos, mas o que escapa de muita gente é que a teoria da evolução, na verdade, acomoda Deus melhor do que a opção existente até então.

Darwin se incomodava ao ver o que identificava como sinais de crueldade na natureza: gatos que torturavam ratos antes de comê-los, ou vespas cujas larvas eram programadas para se alimentar dos órgãos internos de seu hospedeiro na ordem exata para fazê-lo viver o máximo possível enquanto era devorado. Ele também identificava algumas coisas fora do lugar: na América do Sul, Darwin viu emas e se perguntava qual era o ponto de uma ave que não voava. Se Deus fez tudo isso exatamente desse jeito, além de cruel, Ele seria um mau designer. Agora, se gatos torturadores, vespas e emas eram produto da seleção natural e não da vontade direta divina, Deus podia permanecer como o autor das leis naturais, que de vez em quando resultam em algo sublime, e de vez em quando levam a “falhas de design”.

“Ah, mas Darwin não virou agnóstico?” Sim, virou. Mas Giberson mostra que o agnosticismo do naturalista não era consequência nem causa de sua teoria da evolução. Para começar, Darwin tinha sérios problemas com o conceito de inferno – ainda mais porque seu pai morreu sem acreditar em Deus. Admitir que um familiar esteja no castigo eterno é duro para qualquer um, e com Darwin não foi diferente. A reação é bem humana: diante de uma crença incômoda, é mais fácil mudar de crença que mudar de vida. A gota d’água foi a morte de sua filha Annie, aos 11 anos. Era inaceitável para Darwin que o Deus bíblico, que não deixava um pardal cair do céu sem Sua permissão, deixasse a menina morrer. E a fé do naturalista se foi junto com Annie.

No capítulo seguinte, vemos a repercussão das ideias de Darwin nos meios religiosos. Uma repercussão quase nula, aliás: as pessoas mais religiosas da virada do século 19 para o século 20 não estavam muito alarmadas com A origem das espécies. O perigo vinha da Vida de Jesus escrita por David Strauss em 1835. Milagres, a veracidade da Bíblia e a própria existência de Jesus foram questionados, numa prévia do que fariam no século 20 em nome do “Jesus histórico”. Foi para reagir a Strauss que protestantes norte-americanos lançaram o movimento fundamentalista, assim chamado por causa de The fundamentals, uma coleção abrangente de coisas que os cristãos deviam aceitar para serem bons fiéis. Darwin passou por esse teste. Havia poucas críticas ao evolucionismo em The fundamentals, mas nem sinal de criacionismo de Terra jovem – que em 1909 era defendido apenas por uma pequena seita, os adventistas do sétimo dia, e isso por causa não da Bíblia propriamente dita, mas de visões da fundadora do grupo.

No livro, Giberson descreve como a oposição a Darwin ganhou corpo, começando com o famoso processo Scopes (ou “processo do macaco”), que foi narrado por um jornalista narcisista e preconceituoso, e virou peça de teatro e filme. Vemos todas as tentativas legais de bloquear o ensino da evolução e, depois, garantir tempo igual em sala de aula ao criacionismo ou ao Design Inteligente. Descobrimos como o criacionismo da Terra jovem, que estava confinado aos círculos adventistas no início do século 20, se tornou a crença padrão dos fundamentalistas atuais a partir da década de 60, graças a Henry Morris e John Whitcomb: eles deram roupagem mais científica a uma quase desconhecida obra antievolução dos anos 20 e o resultado, The Genesis flood, disparou uma onda de literalismo bíblico nos Estados Unidos. É curioso notar que a contestação a Darwin não usou a Biologia, e sim a Geologia. Outra observação interessante de Giberson: pelos próprios critérios, Morris e Whitcomb falharam, pois pretendiam que sua ciência da criação fosse levada a sério pela comunidade científica, o que não aconteceu. Mesmo assim, o criacionismo decolou. O Design Inteligente, que Giberson classifica como uma espécie de reciclagem do criacionismo, ganhou um capítulo em que o autor comenta: como cristão, ele até gostaria que o DI fosse verdade – quem não gostaria? Um Deus designer, que cria maravilhas biológicas… mas logo a seguir Giberson expõe os buracos científicos e teológicos do DI, com direito ao retorno do “Deus cruel”, que desenhou o engenhoso e aterrorizante sistema de alimentação das larvas das vespas icneumônides…

Para mim, existem dois capítulos que constituem pontos-chave do livro. Um deles é o terceiro. Nele vejo uma explicação para grande parte da rejeição atual ao evolucionismo ao descrever os “dark companions” de Darwin, que todo criacionista adora lembrar. “A eugenia e o nazismo se basearam em Darwin”, dizem. Giberson enumera os expoentes daquilo que se convencionou chamar de “darwinismo social”: desde Francis Galton, primo de Darwin, que sugeriu às famílias “boas” que tivessem mais filhos, até os nazistas, inspirados por Ernst Haeckel (que era contemporâneo de Darwin, e não de Hitler), com a Solução Final e a eliminação dos inaptos. No meio disso, esterilizações forçadas nos Estados Unidos e outras crueldades. Mas, enquanto a eugenia já existia muito antes de Darwin, Giberson aponta outro aspecto fundamental: a teoria da evolução é descritiva, não propositiva; ela diz o que acontece na natureza, e não o que deveria acontecer – e muito menos o que o homem ou a sociedade deveriam fazer. Em A origem das espécies não há juízo de valor, ao contrário do “darwinismo social”, que pode ser social, mas não é darwinismo. O problema é que, depois de tanta propaganda criacionista associando Darwin a Hitler, explicar que focinho de porco não é tomada ficou quase impossível. E aí, sejamos honestos, quem quer aderir a uma teoria que serviu de base para tanta atrocidade?

O outro capítulo que compõe a essência do livro é o sétimo. Nele, Giberson descreve como a disputa sobre a teoria da evolução já deixou, há muito tempo, de ser uma controvérsia científica, na qual o importante é descobrir a verdade sobre a natureza, para se tornar uma guerra cultural, na qual a realidade pouco importa e o objetivo é apenas desmoralizar ou esmagar o adversário. Isso aconteceu justamente quando começaram a colocar Deus no meio da discussão: no cenário evolucionista, há espaço para Ele? E, se existe, qual é esse papel? Não ajudou muito o fato de a associação norte-americana de professores de Biologia ter definido evolução como um processo “impessoal, imprevisível e não-supervisionado”, extrapolando um pouco o que os cientistas sabem sobre o assunto. Como é possível afirmar taxativamente que não existe um propósito ou um direcionamento no processo? O resultado é que o evolucionismo se tornou praticamente uma religião em si, que cresce à medida que seus “sacerdotes” massacram as outras religiões. Para eles, a evolução explica tudo (leia-se “tudo mesmo”): a moralidade, o altruísmo, até mesmo a religiosidade, o estupro e o infanticídio. Para um outro grupo, Darwin causou a Primeira Guerra Mundial, a depressão da década de 30, a eugenia nazista. Dawkins e companhia dizem que Darwin tornou Deus inútil; criacionistas alegam que Darwin trabalhava para o diabo. Não surpreende que o combate seja sangrento, e que o cerne da questão (afinal, Darwin tinha razão em sua teoria biológica?) tenha ficado de lado. É algo que qualquer blogueiro experimenta quando seus leitores passam a se agredir na caixa de comentários por todo tipo de assunto, menos o conteúdo que o blogueiro tinha escrito.

Após uma pequena introdução sobre como a evolução levou Karl Popper a abrir uma exceção na sua descrição de “teoria científica” como algo necessariamente falseável, Giberson dedica o capítulo 8 a uma explicação altamente convincente das cinco grandes evidências a favor de Darwin: o registro fóssil (Giberson não falou de Nicolau Steno, mas permitam-me recordar a importância desse bem-aventurado católico nesse ponto), a Biogeografia, a Anatomia comparada, as semelhanças no desenvolvimento das espécies, e Bioquímica/Fisiologia comparadas. Até aí, o leitor se pergunta: a leitura está muito boa, mas e a promessa do subtítulo? Até agora, o autor não explicou “como ser cristão e acreditar na evolução”. Isso fica para a conclusão do livro, Pilgrim’s Progress (o nome é inspirado na obra religiosa homônima do século 17, de John Bunyan). Deus, diz Giberson, é o autor da natureza, mas não cuida dos detalhes. Gatos cruéis e a morte terrível dos hospedeiros de larvas não levam o dedo divino. E, talvez até mais importante, o homem não é um “acidente” da evolução. Há propósito e significado no processo, que Giberson descreve como “expressão da criatividade divina, embora em um modo que não possa ser capturado pela visão científica do mundo”. Que apenas dois tipos de objetos físicos (quarks e léptons) e quatro forças (gravitacional, eletromagnética, nuclear forte e nuclear fraca) tenham dado origem a tudo é um testemunho dessa criatividade.

É uma pena que Saving Darwin ainda não tenha uma tradução para o português. A guerra cultural em torno do evolucionismo está chegando ao Brasil, mobilizando defensores e detratores da teoria. Eu particularmente discordo de algumas elocubrações teológicas de Giberson no livro (o que provavelmente se deve ao fato de eu ser católico e ele, protestante), mas o valor dessa obra como construtora de uma ponte sólida entre fé cristã e adesão ao evolucionismo é inegável.

Marcio Campos

fonte: Tubo de Ensaio
via: PavaBlog
O outro capítulo que compõe a essência do livro é o sétimo. Nele, Giberson descreve como a disputa sobre a teoria da evolução já deixou, há muito tempo, de ser uma controvérsia científica, na qual o importante é descobrir a verdade sobre a natureza, para se tornar uma guerra cultural, na qual a realidade pouco importa e o objetivo é apenas desmoralizar ou esmagar o adversário. Isso aconteceu justamente quando começaram a colocar Deus no meio da discussão: no cenário evolucionista, há espaço para Ele? E, se existe, qual é esse papel? Não ajudou muito o fato de a associação norte-americana de professores de Biologia ter definido evolução como um processo “impessoal, imprevisível e não-supervisionado”, extrapolando um pouco o que os cientistas sabem sobre o assunto. Como é possível afirmar taxativamente que não existe um propósito ou um direcionamento no processo? O resultado é que o evolucionismo se tornou praticamente uma religião em si, que cresce à medida que seus “sacerdotes” massacram as outras religiões. Para eles, a evolução explica tudo (leia-se “tudo mesmo”): a moralidade, o altruísmo, até mesmo a religiosidade, o estupro e o infanticídio. Para um outro grupo, Darwin causou a Primeira Guerra Mundial, a depressão da década de 30, a eugenia nazista. Dawkins e companhia dizem que Darwin tornou Deus inútil; criacionistas alegam que Darwin trabalhava para o diabo. Não surpreende que o combate seja sangrento, e que o cerne da questão (afinal, Darwin tinha razão em sua teoria biológica?) tenha ficado de lado. É algo que qualquer blogueiro experimenta quando seus leitores passam a se agredir na caixa de comentários por todo tipo de assunto, menos o conteúdo que o blogueiro tinha escrito.Após uma pequena introdução sobre como a evolução levou Karl Popper a abrir uma exceção na sua descrição de “teoria científica” como algo necessariamente falseável, Giberson dedica o capítulo 8 a uma explicação altamente convincente das cinco grandes evidências a favor de Darwin: o registro fóssil (Giberson não falou de Nicolau Steno, mas permitam-me recordar a importância desse bem-aventurado católico nesse ponto), a Biogeografia, a Anatomia comparada, as semelhanças no desenvolvimento das espécies, e Bioquímica/Fisiologia comparadas. Até aí, o leitor se pergunta: a leitura está muito boa, mas e a promessa do subtítulo? Até agora, o autor não explicou “como ser cristão e acreditar na evolução”. Isso fica para a conclusão do livro, Pilgrim’s Progress (o nome é inspirado na obra religiosa homônima do século 17, de John Bunyan). Deus, diz Giberson, é o autor da natureza, mas não cuida dos detalhes. Gatos cruéis e a morte terrível dos hospedeiros de larvas não levam o dedo divino. E, talvez até mais importante, o homem não é um “acidente” da evolução. Há propósito e significado no processo, que Giberson descreve como “expressão da criatividade divina, embora em um modo que não possa ser capturado pela visão científica do mundo”. Que apenas dois tipos de objetos físicos (quarks e léptons) e quatro forças (gravitacional, eletromagnética, nuclear forte e nuclear fraca) tenham dado origem a tudo é um testemunho dessa criatividade.

É uma pena que Saving Darwin ainda não tenha uma tradução para o português. A guerra cultural em torno do evolucionismo está chegando ao Brasil, mobilizando defensores e detratores da teoria. Eu particularmente discordo de algumas elocubrações teológicas de Giberson no livro (o que provavelmente se deve ao fato de eu ser católico e ele, protestante), mas o valor dessa obra como construtora de uma ponte sólida entre fé cristã e adesão ao evolucionismo é inegável.

“Quando os gigantes caminham sobre a terra.”

“Para o jornalista (Mick Wall), no caso do lendário Led Zeppelin, ‘as drogas eram o combustível, o sexo uma forma de auto-expressão e a música, simplismente, o mapa do tesouro’.”

ZEPPELIN, Led; Quando os gigantes caminham sobre a terra – Ed. Larousse do Brasil, 550 páginas, R$ 99
fotne: Jornal Hoje em Dia – Caderno Plural – 22/11/09

A vítima e o opressor

Por: Joaquim Tiago

Vítima e opressor são dois lados de uma mesma moeda. Quem é vítima hoje pode ser o opressor de amanhã. Reproduzimos o que aprendemos, até como forma de identidade que temos e que somos.

Vivemos dentro de um sistema onde existem duas escolhas, ou são duas escolhas que nos oferecem para sobreviver. Aceitamos por imposição sermos vítimas ou nos tornamos opressores.

É assim que funcionam as instituições em boa parte do mundo corporativo, gente oprimindo gente, gente vitimando gente, as vítimas que um dia será também opressor do amanhã, é só experimentar ele, o poder. O poder corrompe por que o sistema é corrompido por ele. Tem gente querendo mandar porque já cansou de ser oprimido e o que ele sabe fazer como pessoa “esperta” é oprimir para que todos possam obedecer.

Como ser uma boa pessoa se todos querem ser mal?

Ser uma boa pessoa neste sistema perverso é ser vítima, lógico que nem toda vítima é uma boa pessoa, mas corre o sério risco de se tornar uma vítima do sistema. As pessoas que são vítimas hoje e não são boas numa oportunidade oprimirá alguém com inveja, por que ela quer ser o que o outro é, mas não consegue.

O mundo é um lugar oprimido por demais, infelicidade beira por todos os lados e mesmo quem não é vítima aos nossos olhos podem ser vítima de si mesmo, de um sistema ainda mais perverso que o corporativismo. E quem não tem um opressor no final da história coorporativa tem dentro de si o eu, a existência.

A não realização pessoal de quem não sabe o que é. Eu sei que sou mesmo cobrado e julgado pelo o que sou, ou por quem deveria ser. Oprimido por que ainda não sei ou se sei preciso fazer para provar que sou. Frustrações de quem não sou e nem realizei por saber que eu não sei se sou capaz. Quem me falou que sou capaz? Que certeza pode ter?

O opressor não esta satisfeito e quer mais, não valoriza e impõe que você só será quando produzir além do que você fez para ser. Para ganância isso não tem fim e nem reconhecimento. Que tipo de reconhecimento fazemos do outro? O outro não merece ser reconhecido a não ser por algumas “boas” palavras de consolo tais como: “você merece ou você é especial”.

Cristo nos ensina a amar a quem nos oprime (Mt 5.44), ainda pede pra fazer o bem e orar por eles. Não abandone o ensino de Cristo agora mesmo que pareça assustador. Eu sei que ser a vítima não é tarefa fácil, nem sei se devo chamar de tarefa, quanto mais algo que seja fácil. A vítima tudo sofre e tudo pode padecer.

Mas como vamos encarar nosso opressor e amá-lo?

Não fazendo parte ou sendo cúmplice da sua ação, não se tornando o mesmo. Assim encontraremos um inimigo forte a nossa altura, que é a nossa vontade, nosso desejo, meu querer, minha justiça e meu engano. Será que eu sei fazer justiça? Será que eu consigo justificar meus atos?

Eu não tenho que esta de acordo com meu opressor e nem ajudá-lo no que faz, mas não tenho que ser como ele em nada, tenho que saber de que lado da moeda estou.

Os evangélicos nestes dias estão sendo vitimados por um bando de mau testemunhos vindo de teologias do dinheiro, do eu posso, do relativismo, disso e daquilo. Mas como reagiremos?

Muitos discípulos de Cristo estão sendo injustiçados e vitimados em igrejas. Mas como reagir? A melhor forma que o sistema nos ensina é sermos também um opressor para sobrevivermos em um mundo oprimido.

Creio que quando Cristo respondeu aos seus opressores não foi buscando justiça própria, mas levá-los a entender e crer. Nem todos queriam ouvir a verdade porque não queriam deixar de serem opressores em nome da religião e do orgulho.

O mundo esta debaixo de um julgo pesado da economia, da exploração. O mundo é oprimido pelo desemprego, fome, guerra e muitas outras mazelas. São milhares de vítimas em muitos lugares e são milhares de opressores que abusam das vítimas para poderem lucrar nas mais variadas maneiras.

Os vitimados do sistema estão refém da sobrevivência, oprimidos pela grande mídia à não pensarem o que são. A grande mídia nos da um sonho de um dia ser também um bom opressor, e valorizamos os que “venceram”, os mínimos que chegaram ao topo da cadeia alimentar.

O sol esta se levantando sobre todas as pessoas, os maus e os bons, os justos e injustos (Mt 5.45). Cristo quebrou o ciclo da opressão sendo a vítima em nosso lugar e nos ensinando a não sermos opressores da mesma forma como foram com ele. Temos a Verdade de vida agora para o ser, para a vontade de agir não mais em justiça própria, mas justificados pela fé Nele.

Se não somos opressores, corremos o risco de sermos vítimas, os opressores estão em uma cadeia e as vítimas logo encontrarão liberdade.


“Se vocês amarem aqueles que os amam, que recompensa vocês receberão?” (Mt 5.46a)

Jesus nunca foi gospel

JNFG

Esta no ar o sítio: Jesus nunca foi gospel.

Uma análise crítica sobre esse mercado em constante crescimento.
No livro Ouça o Espírito Ouça o Mundo – John Stott nos fala das várias transformações de figuras que deram para Jesus ao longo da história. Nos dias atuais estão pintando Jesus como um ótimo empresário e um belo garoto propaganda. Por isso não deixe ler e acompanhar o sítio: Jesus nunca foi gospel.
Parabéns ao Markeetoo.

A razão enlouquecida

spongebob-friends
Sebastião Salgado
Por: Leonardo Boff
Não é a razão fria, mas a razão sensível que nos move

É urgente rever os fundamentos que nos levaram ao atual caos

A conjugação das várias crises, algumas conjunturais e outras sistêmicas, obriga a todos a trabalhar em duas frentes: uma, intrassistêmica, buscando soluções imediatas dos problemas para salvar vidas, garantir o trabalho e a produção e evitar o colapso. Outra transsistêmica, fazendo uma crítica rigorosa aos fundamentos teóricos que nos levaram ao atual caos e trabalhando sobre outros fundamentos que propiciem uma alternativa que permita, num outro nível, a continuidade do projeto planetário humano.

Cada época histórica precisa de um mito que congregue pessoas, galvanize forças e confira novo rumo à história. O mito fundador da modernidade reside na razão, desde os gregos, o eixo estruturador da sociedade. Ela cria a ciência, transforma-a em técnica de intervenção na natureza e se propõe dominar todas as suas forças. Para isso, segundo Francis Bacon, o fundador do método científico, deve-se torturar a natureza até que entregue todos os seus segredos. Essa razão crê num progresso ilimitado e cria uma sociedade que se quer autônoma, de ordem e progresso. A razão suscitava a pretensão de tudo prever, tudo gerir, tudo controlar, tudo organizar e tudo criar. Ela ocupou todos os espaços. Enviou ao limbo outras formas de conhecimento.

Eis que, depois de mais de 300 anos de exaltação da razão, assistimos à loucura da razão. Pois só uma razão enlouquecida organiza a sociedade na qual 20% da população mundial detém 80% de toda a riqueza da Terra; as três pessoas mais ricas do mundo possuem ativos superiores a toda riqueza de 48 países mais pobres, onde vivem 600 milhões de pessoas; 257 indivíduos sozinhos acumulam mais riqueza do que 2,8 bilhões de pessoas, o equivalente a 45% da humanidade; no Brasil, 5.000 famílias detém 46% da riqueza nacional. A insanidade da razão produtivista e consumista gerou o aquecimento global, que trará desequilíbrios já visíveis e a dizimação de milhares de espécies, inclusive a humana.

A ditadura da razão criou a sociedade da mercadoria com sua cultura típica, um certo modo de viver, de produzir, de consumir, de fazer ciência, de educar, de ensinar e de moldar as subjetividades coletivas. Estas devem se afinar à sua dinâmica e valores, procurando sempre maximalizar os ganhos, mediante a mercantilização de tudo. Ora, essa cultura, dita moderna, capitalista, burguesa, ocidental e hoje globalizada, entrou em crise. Ela se expressa nas várias crises atuais que são todas expressão de uma única crise, a dos fundamentos. Não se trata de abdicar da razão, mas de combater sua arrogância (hybris), e de criticar seu estreitamento na capacidade de compreender. O que a razão mais precisa neste momento é de ser urgentemente completada pela razão sensível (M. Maffesoli), pela inteligência emocional (D. Goleman), pela razão cordial (A. Cortina), pela educação dos sentidos (J. F. Duarte Jr), pela ciência com consciência (E. Morin), pela inteligência espiritual (D. Zohar), pelo concern (R. Winnicott) e pelo cuidado como eu mesmo venho propondo há tempos.

É o sentir profundo (pathos) que nos faz escutar o grito da Terra e o clamor de milhões de famélicos. Não é a razão fria, mas a razão sensível que move as pessoas para tirá-las da cruz e fazê-las viver. Por isso, é urgente submeter à crítica o modelo de ciência dominante, impugnar radicalmente as aplicações que se fazem dela mais em função do lucro do que da vida, desmascarar o modelo de desenvolvimento atual que é insustentável por ser altamente depredador e injusto.

Fonte: O Tempo