Mansamente pastam as ovelhas

por: Rubem Alves

O telefone tocou. Era uma hora da madrugada. Quem poderia ser? O que poderia ser? Atendo. “Pai, acordei você…“ Era a voz da Raquel, minha filha. “Acordou“ – respondi numa mistura de mau humor e apreensão. “Pai, o nosso prefeito, o Toninho, acaba de ser assassinado…“ Para a Raquel o assassinato do prefeito era muito mais que um evento político. O Toninho tinha sido seu professor, na Faculdade de Arquitetura. Ela estava compartilhando comigo a sua dor e ódio pela perda de um amigo, um homem que ela admirava. Meus pensamentos, ainda mergulhados na sonolência, se transformaram num bloco de pedra: pura estupefação e horror.

Senti a dor da perda do Toninho. Ele era um homem manso que sonhava coisas bonitas para Campinas. Numa conversa, faz uns meses, ele me disse que estava imaginando um jeito de realizar, praticamente, aquela coisa de “política e jardinagem“ sobre que eu havia escrito na Folha. E fiquei contente…

Mas o que senti foi muito mais que a dor pela perda de um homem bonito. Já havia passado por experiências semelhantes. Quando meu amigo Elias Abrão, que havia sido secretário de meio ambiente de Curitiba, secretário de educação do estado do Paraná e era deputado, morreu num desastre automobilístico, chorei como nunca havia chorado em toda a minha vida. Mas a dor era diferente. Minha dor pela morte do Elias Abrão foi dor pela morte do Elias Abrão: nada mais. Dor num estado puro. Mas a minha dor pela morte do Toninho está sendo diferente. Porque a forma como ele morreu, assassinado, estabelece entre todos nós uma difícil comunhão… Nosso destino está ligado ao dele. Veio-me à memória um texto sagrado que diz que Jesus, “vendo as multidões, compadeceu-se delas, porque andavam desgarradas e errantes como ovelhas que não têm pastor.“

Ovelhas são animais mansos, sem garras ou chifres, incapazes de se defender. Morrem mansamente nos dentes dos lobos. E dizem que nem mesmo balem. Morrem silenciosamente. Essa é a razão por que é preciso que haja pastores que as protejam. O pastor traz na mão o cajado, arma para a defesa do seu rebanho. E quando tudo está tranquilo, as ovelhas pastando, os lobos mantidos à distância pelo pastor, ele pode se dedicar a tocar a sua flauta. “Ainda quando eu andar pelo vale onde a morte está à espreita, não temerei mal algum; a tua vara e o teu cajado me defendem e consolam…“ (Salmo 23). Um dos corais mais lindos de Bach descreve essa cena: “Mansamente pastam as ovelhas…“

Ah! Que imagem linda! Seria bom que fosse assim! Os homens, as mulheres, os velhos, a crianças – todo mundo “pastando“ pelas ruas da cidade nas noites frescas, sem medo… Que mais poderíamos desejar? A vida pode ser assim, se não houver medo.

E é para isso que pastor existe: para que não haja medo. A ausência do medo é o pré-requisito para a vida boa a que estamos destinados. Isso mesmo! Nisso os místicos, os poetas e a psicanálise estão de acordo: o coração está em busca de um mundo que possa ser amado. Nas palavras de Bachelard “o universo tem, para além de todas as misérias, um destino de felicidade“. Mas essa imagem de felicidade que dava sentido à nossa vida comum se transformou numa bolha de sabão. Os poetas insistem em acreditar, continuam soprado e falando de esperança – mas tão logo se formam, as bolhas flutuam no ar e arrebentam.

O Toninho foi assassinado. O lobo ou os lobos – não sei – estavam à espreita. E ele era como uma ovelha – ia despreocupado, sem medo, inconsciente do perigo, sem pastor que o protegesse. Foi essa imagem, a imagem da fragilidade e do abandono diante dos lobos, que me comoveu. Sinto dor pela morte do Toninho. Mas sinto uma dor maior por nós mesmos, porque o que aconteceu com o Toninho é um símbolo da condição de todos nós: somos ovelhas sem pastor, à mercê dos lobos.

No tempo em que havia pastores os lobos eram trancados em jaulas e as ovelhas pastavam soltas, mansamente. Agora, sem pastores, as ovelhas se trancam em jaulas e os lobos caminham soltos, tranquilamente. O medo nos leva a nos encerrarmos em jaulas. Não nos atrevemos a andar pelas ruas, pelos parques, pelos jardins, pelas praças. Abandonados, deixaram de ser nossa propriedade. Tornaram-se habitação dos lobos que neles ficam à espreita. E eu me pergunto: de que valem todas as coisas boas que se possam produzir numa sociedade se estamos todos, todo o tempo, condenados ao medo?

Alguns explicam a nossa condição como sendo decorrente das estruturas injustas de distribuição de renda: a violência criminosa seria, então, uma simples consequência da violência estrutural econômica, que seria a causa. Duvido. Penso segundo a lógica dos negócios. Era costume dizer: “O crime não compensa“. Isso era verdadeiro num mundo onde os pastores protegiam as ovelhas. Mas a nossa situação é outra. Vale agora uma outra afirmação: “O crime compensa“. E compensa porque o Estado – pastor supremo! – se tornou um pastor sonolento, vagaroso, de cajado mole. O crime compensa por causa da impunidade. O crime se transformou num empreendimento econômico altamente lucrativo. E os que se dedicam ao negócio do crime não são os pobres, as vítimas das estruturas econômicas injustas. Será, por acaso, possível convencer os lobos a comer capim como as ovelhas? Os lobos só são convencidos pela força dos cajados.

A morte do Toninho me dá grande tristeza, Mas o que me dá tristeza maior é a falta de esperança. Por mais que eu pense não consigo imaginar as ovelhas pastando mansamente… Assim, só me resta uma alternativa: trancar-me dentro da segurança precária do meu apartamento e, enquanto escrevo esse artigo, ouvir o coral de Bach. “Mansamente pastam as ovelhas…“

(Folha de S. Paulo, Tendências e Debates, 12/09/2001.)
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O risco que se é

Por: Joaquimtiago Bill

A dependência pode causar constrangimento para mim e para outros. Principalmente quando dependo de Deus.

Tornar-me dependente do Pai é estar preparado para o que Ele vai fazer se é que vou aceitar o que Ele vai me preparar para o ser.

Não é o que vou fazer, é o que sou ou o que estou sendo. Quem faz é Ele, o Pai Eterno em todas as coisas. A crise do ser, quem sou/sendo.

A crise do ser aparece quando faço, mas paradoxalmente porque também deixei de fazer.

Mas fazer porque sou ou fazer para ser?

Para ser o que sou – o que faço é a busca do ser, sendo expresso fazendo quando sou. Quem não faz demonstra quem também é, demonstra ser covarde.

Mas se ainda não estou satisfeito com o que sou? Se não sou o que quero ainda, o que tenho que fazer? Porque ainda falta e não consigo me satisfazer?

Vejo que somos aliciados pelo poder!

Confundo quem sou por querer o poder e esquecer-se do que tenho. E se não tiver? O que representa o que tenho?

Só sou se tenho poder. O poder é uma corrupção!

O poder não esta no poder. O poder só da identidade para o tirano. O poder de quem sou é abrir mão de poder tomar a força o que realmente não sou e não deveria ser. O que é não pode ser para ter poder. Para poder contribuir para o que ainda não é.

Eu não quero chegar ao poder nem por força e nem por violência. Quero ser feliz com o que sou e se o que sou tem certo poder de influência não é mérito meu, é mérito de quem me capacitou e proporcionou. Eu não tenho esse poder, só posso escolher aceitar ou não, só posso querer realizar sua vontade como escolha dependente.

Quando me preocupo com o que posso ser e o poder, esqueço de quem sou ou de quem estou sendo. Não é simplesmente o que ainda vou ser, mas o que ainda estou fazendo com o que realmente sou.

Será que estou mesmo satisfeito com quem sou ou quem sou esta mesmo sendo quem se propõe a ser? Corremos um sério risco de fazer para satisfazer quem nos pode da poder. Nesse caso a identidade é de quem paga com a moeda da traição. Esse realmente é um passo em falso.

Essa então é a grande mudança, quando Eva viu o fruto e ficou sabendo que poderia ser igual a Deus por conta própria. Eva abriu mão do poder da dependência correspondente a fé. Realmente é um erro fatal querer ser igual a Deus pelas próprias mãos, próprias forças e próprio poder.

Poder depender é saber que a fé é um risco. O risco de se estar satisfeito consigo.

“Sabemos que Deus age em todas as coisas para o bem daqueles que o amam, dos que foram chamados de acordo com o seu propósito.” Rm 8.28

A institucionalização da inveja

Obs.: Acabei de ler esse texto no blog da Bacia. Esse maravilhoso texto extremamente profético completara a definição de nossa inveja contemporânea que relatei no texto “Meu bem querer”.

Antes de começarmos a analisar a saída cristã para o capitalismo, vale à pena explorar os modos através dos quais o capitalismo domina nossa vida comum, a fim de não nutrirmos a ilusão de que estamos saindo dele quando na verdade não estamos.

O disciplinamento do desejo e da imaginação

Como observado acima, uma das características distintivas do fascismo é que ele opera como movimento de massa, dentro do qual a maioria busca ativamente a sua própria repressão e deseja as próprias coisas pelas quais é dominada e explorada. Esta é uma descrição muito acurada do estado de coisas produzido pelo neoliberalismo.

Mas como pode ser isso? No ocidente onde nasceu o neoliberalismo de modo geral não opera através do uso de violência, de ameaça ou força coerciva (embora violência, ameaça e força coerciva façam parte integral da globalização do neoliberalismo). Então o que leva tantos a escolherem livremente a sua própria repressão? Essa busca da maioria pela própria repressão é melhor explicada pelos modos através dos quais o neoliberalismo, em vez de usar a violência para controlar as massas, disciplina tanto os desejos quanto a imaginação das massas de modo a que elas possam controlar a si mesmas (Foucault).

A sugestão de que o desejo possa ser manipulado vai contra a ideologia dominante da teologia do neoliberalismo, que afirma que o desejo é uma força encontrada no interior das pessoas, inteiramente livre de influência externas. Em conformidade com isso, o neoliberalismo alega que, em vez de disciplinar o nosso desejo, o que faz é nos prover de uma sociedade em que somos livres para perseguir qualquer desejo que seja [de forma inerente] nosso. Uma análise mais profunda, no entanto, revela que essa é uma falsa ideologia imposta por aqueles que deliberadamente manipulam o desejo, e sustentam sua habilidade de manipular o desejo precisamente proclamando que o desejo é livre.

Para começar, o neoliberalismo manipula o desejo colocando na raiz do desejo a noção deprivação/escassez. Nesse sentido, vale observar a aliança existente entre o liberalismo econômico e a moderna psicanálise (a qual, vale lembrar, nasceu do capitalismo): enquanto o capitalismo nos fundamentou num mundo definido por escassez, a psicanálise expandiu essa noção colocando a privação dentro da própria psiquê. Sigmund Freud deu início a esse processo com suas reflexões sobre desejo (ou seja, libido), em que a carência é a existência edipiana por excelência; a psicanálise, embora tenha se distanciado de Freud, continua a operar segundo a noção dessa carência interna essencial1.

Não apenas o desejo é definido pela privação; o neoliberalismo também apresenta o desejo como insaciável, precisamente porque – como a economia de mercado nos faz lembrar continuamente – existe sempre algo de que estamos desprovidos. Em particular, existe sempre algo de que estamos desprovidos em comparação a outra pessoa, e dessa forma a privação se torna parte de um processo interminável de competição com o próximo2.

Isto, por sua vez, conduz ao segundo ponto: o modo em que o desejo é disciplinado ao ser enraizado no interesse próprio3. Aqui o desejo é reduzido ao grito infantil de “eu quero, eu quero, eu quero” e “me dá, me dá, me dá”. Uma economia impelida por interesse próprio, no entanto, é uma economia impelida pela ganância4. O resultado é “a institucionalização da inveja” e a onipresença da cobiça5. Da mesma forma, nada disso é surpresa quando se entende o neoliberalismo como uma forma de paganismo, pois, de acordo com Paulo, a cobiça foi o pecado primal de Adão e é o emblema da humanidade adâmica6. Isso explica, além de tudo, tanto a competitividade quanto a parcialidade inerentes ao capitalismo, pois, como também observa Paulo, a cobiça se expressa em espírito de divisão e conduz de modo natural à violência7.

Em terceiro lugar, o desejo tem também sido condicionado porque tem sido alinhado à noção de merecimento: o indivíduo tem direito adquirido àquilo que deseja. Isso torna-se especialmente evidente no modo pelo qual o discurso dos “direitos humanos” foi sequestrado pelos ricos e poderosos e usado como meio de sustentar sua riqueza e seu poder8. O discurso dos “direitos humanos” tornou-se desculpa para justificar a busca pelo que se deseja sem qualquer consideração com os outros. Em consequência, “igualdade” tornou-se função de “desigualdade”9.

Dessa forma, ao fundamentar o desejo numa carência insaciável, ao reduzi-lo a ganância (inveja e cobiça) e ao alinhá-lo à noção de direitos adquiridos, o neoliberalismo produz uma forma de desejo que é completamente condicionada. O resultado é o inverso da noção platônica tradicional do corpo como prisão da alma. Quando o desejo é dessa forma condicionado, a alma é que torna-se a prisão do corpo10. Essa, ainda, é uma forma disciplinada de desejo que se torna radicalmente alienada. Como argumenta Zizek11:

O famoso truísmo de Jenny Holzer, “protege-me daquilo que desejo” pode ser lido como referência irônica à sabedoria convencional masculina-chauvinista que afirma que uma mulher deixada a seus próprios recursos se verá absorvida por uma fúria autodestrutiva, ou pode ser lido de modo mais radical, como apontando para o fato de que na sociedade patriarcal contemporânea o desejo da mulher é radicalmente alienado: ela deseja o que os homens esperam que ela deseje, desejos que são desejados por homens […] “Aquilo que quero” já foi imposto sobre mim pela ordem patriarcal que me diz o que devo desejar.

Tendo coberto o desejo, resta analisar os modos pelos quais o neoliberalismo disciplina nossa imaginação. Basicamente, ele o faz empregando a retórica da independência, da segurança e da responsabilidade, a fim de mascarar o modo como condiciona nossa imaginação (individual e coletiva) através de medo e desespero.

O neoliberalismo glorifica o indivíduo autônomo e define maturidade e sucesso pela capacidade de se viver de modo independente dos outros. Há, no entanto, uma grande dose de medo subjacente a essa apresentação. Quando a sociedade é dominada por indivíduos interessados apenas em si mesmos, restam poucas razões para uma pessoa cuidar de outra; o indivíduo é impelido em direção à independência porque, no fim das contas, não pode contar com quer que seja. Além disso, como o mundo é definido pela escassez, e como há tamanha disparidade dentro do sistema, passamos a temer o outro que irá tentar tirar aquilo que é meu e ele não tem. Diante disso o que o indivíduo faz é retrair-se e acumular bens, não apenas porque não pode contar com o outro, mas porque tem medo de perder o pouco que tem (quer por via de um desastre que leve minha casa, de um imigrante que leve o meu emprego, de um drogado que leve minha carteira ou de um terrorista que me leve a vida).

Porém, ao invés de dizer que é o medo que nos impele à independência, o discurso de “responsabilidade” é usado para justificar esse modo de vida. Conforme documentado por Max Weber e H. Tawney, associar independência econômica a responsabilidade está muito enraizado nas tradições puritanas e reformadas, e isso provê ao neoliberalismo uma fundação que vê a responsabilidade como virtuosa ao invés de fonte de temor12. Porém o que tem sido negligenciado é que o discurso da “mordomia” executa precisamente a mesma função dentro de grande parte da cristandade contemporânea. A ideia de “mordomia” provê agora os cristãos com um verniz religioso que justifica um modo de vida fundamentado no temor13. Cabe lembrar, então, as palavras de Eduardo Galeano: “O demônio do medo se disfarça a fim de nos enganar. O enganador oferece covardia como se fosse prudência e traição como se fosse realismo”14.

O outro meio pelo qual o neoliberalismo condiciona a imaginação é através do desespero. Precisamente porque nos apresenta uma teologia consumada, não nos resta esperança alguma. Não há escapatória e não há alternativa possível porque, a priori, não há alternativaimaginável. O capitalismo torna-se, assim, “o partido do desespero contrarevolucionário”.

Daniel Oudshoorn
Poser or Prophet

Via: Bacia das Almas

NOTAS

  1. Dentro do Complexo de Édipo o menino deseja aquilo de que é privado – a mãe – e a menina deseja aquilo de que é privada – o pênis. []
  2. Consequentemente, a noção de privação divorcia-se da noção de necessidade e se torna um processo de diferenciação competitiva entre nós mesmos e os outros (cf. Baudrillard, The Consumer Society, 61-67). []
  3. Como admite o próprio Adam Smith: “dirigimo-nos não à humanidade deles mas a seu amor próprio; nunca falamos com eles a partir das nossas necessidades, mas das vantagens para eles. []
  4. Requer, em particular, uma contínua ganância por lucro e, reciprocamente, ganância contínua para consumir mais e mais (Loy, 286). []
  5. Cf. Bell, 22. É significativo que, enquanto a primeira economia monetária nascia na europa ocidental, precisamente esse resultado foi profetizado pelos primeiros franciscanos (Francis of Assisi: Early Documents, Vol 1, The Saint, ed. By Regis J. Armstrong et al. [New York: New York Ciety Press, 1999], 541). O resultado, como observado por Lacan, é que o desejo do indivíduo, ao invés de ser livre, é transformado em desejar o que deseja o outro (cf. Ecrit, trans. by Bruce Fink [New York: W. W. Norton & Co., 2006], 79, 92, 98, 148). []
  6. Cf. Ro 7.7-8; 13.9; 1 Cor 5.10-11; 6.10; 2 Cor 9.5; Ef 5.5. Em contraste, o princípio fundamental da economia do Antigo Testamento está resumida no décimo mandamento: “Não cobiçarás”. (cf. Christopher Wright, 162). []
  7. Cf. Ro 1.29-30; 1 Cor 5.9-11; 6.9-10; 2 Cor 12.20; Gal 5.20-21; Col 3.5-8. []
  8. Foucault explora esse mecanismo em detalhe em Discipline and Punish, 80-87. Cf. Bell Jr., Liberation Theology After the End of History, 124-29. []
  9. Nessa linha, Baudrillard: “não existe direito a espaço enquanto há espaço para todos. Da mesma forma não houve ‘direito à propriedade’ até que deixou de haver terra para todos”. (The Consumer Society, 58). []
  10. Foucault, Discipline and Punish, 30; cf. Barber, 83. []
  11. Lacan, 38-39. []
  12. Max Weber, The Protestant Ethic and the Spirit of Capitalism, Routledge Classics, trans. by Talcott Parson (London: Routledge, 1992); R. H. Tawney, Religion and the Rise of Capitalism: A Historical Study (New York: Harcourt, Brace & World Inc., 1954). É por essa razão que os puritanos e aqueles de tradição reformada se opunham a cristãos, como os franciscanos, que abraçavam a pobreza. Calvino chegou a proibir a mendicância, e o grito de guerra dos puritanos era “dar esmolar não é caridade” (Weber, 108-109, 116, 240 n45; cf. Tawney, 200). É notável que, dentre as ordens mendicantes, os primeiros franciscanos tenham sido capazes de prever a conexão, não apenas entre responsabilidade e temor, mas também entre responsabilidade e ganância (cf. “The Sacred Exchange between Saint Francis and Lady Poverty,” 542-45, em que a Ganância aparece sob os nomes de Prudência e Previdência, e acusa a Dama pobreza de ser preguiçosa e depravada). []
  13. Cf. esp. Kelly S. Johnson, The Fear of Beggars: Stewardship and Poverty in Christian Ethics, The Eerdmans Ekklesia Series (Grand Rapids: Eerdmans, 2007). O discurso da mordomia foi frequentemente usado, por exemplo, para justificar o trabalho escravo. []
  14. We say No: Chronicles 1963-1991, trans. by Mark Fried and others (New York: W. W. Norton & Company, 1992), 237. []

Meu Bem Querer

Pode alguém querer mal o que quer bem?

Pode os dois pensamentos conviver dentro de um mesmo desejo?

Qual é o seu bem querer? Querer o bem ou o mal?

O meu bem querer – é querer ser bem mais do que aquele que quero tanto bem – ser.

E o que eu quero?

Quando nosso querer nos confunde com o que somos, é querer o que não somos ou não temos. Quando meu bem querer não é o que ainda sou, sinto falta do que não tenho como se deveria ter.

Admiramos nosso bem querer, essa admiração pode alcançar a força para levar-nos a abandonar quem somos e até odiar a existência. Se não conseguimos nosso tão admirável bem querer entramos no sentimento ambíguo do não querer, do odiar.

O bem se tornou um mal querer, mesmo que seja para o próprio bem, que já é mal.

Meu bem querer inveja o que não tenho, a inveja é uma insatisfação permanente, amiga intima do individualismo.

A inveja é um sentimento apenas destrutivo que admira com a força do egoísmo.

Desejar o que é do outro como se ele nunca merecesse e tudo fosse feito para quem sentisse. Quem quer a inveja deseja o que é do outro e não o que é bom para o outro. Pessoas individualistas se vêem no direito do merecimento mais do que no dever do esvaziamento.

Dias de insatisfação

Os dias são incomodo.

Corremos o risco de ser um fracasso social. Somos levados a desejar o merecimento por apenas possuir. Na mentira propagada os bens de entretenimento e materiais trará significado.

Qual a resposta para o merecimento de cada um? Qual a resposta para o merecimento pessoal? Quem não tem resposta vive o incomodo e a insatisfação da não realização.

Não satisfeito consigo busca no outro o que acredita ser realizado. Como nunca vai consegui possuir ser o outro passa a odiar num confuso desejo de admiração e insatisfeito alimento pelo egoísmo que o faz pensar ser merecedor.

O bem querer do homem hiper-moderno tornou-se a si mesmo.

O homem tornou-se deus de si mesmo. A nova religião é o individualismo e tudo hoje é feito para cultuá-lo com seus desejos, levando-o a uma crise porque sua vontade é ilimitada. Vive-se uma competição incansável e cada um fica de olho no que é do outro e a cada fracasso alheio uma vitória.

O homem hiper-moderno é insatisfeito consigo mesmo por que ainda não possui todas as coisas que deseja e ele não sabe mais nem o que deseja.

O amor não sente inveja

Quem ama se satisfeita com o amor. O amor agrada o portador e beneficia o amado. O amor não precisa sentir inveja por saber que seu bem querer é sempre querer bem o outro por amor.

“Não maltrata, não procura seus interesses, não se ira facilmente, não guarda rancor.” I Co 13:5

Se eu quero o bem, não posso desejar o mal, querer bem é aceitar o bem que é feito ao outro como um bem que foi feito a mim por participar da alegria amorosa de ver o outro realizado. Mesmo que não exista ninguém mais assim, não existindo vejo que o amor esfriou.

“O amor não se alegra com a injustiça, mas se alegra com a verdade.” I Co 13:6

Quem sente inveja não ama. Quem ama não tem medo de conhecer a verdade e de saber o que realmente quer, o que realmente deseja.

O que você bem quer?

“O amor é paciente, o amor é bondoso. Não inveja, não se vangloria, não se orgulha.” I Co 13:4

Quem precisa de Deus?

por: Joaquimtiago

O amanhã nos assusta mais do que dia de hoje. A surpresa que nos cerca do que pode ou não acontecer não nos deixa dormir a vontade.

Preocupações latentes, mirabolantes e sem fim vai e vem na mente que não quer parar. A mente não quer parar e nem precisa parar por que é dela esse reino da preocupação excessiva e racional.

São inúmeras incertezas constantes que nossa mente tem que trabalhar racionalmente para resolver, inúmeros cálculos seguros, previsões fundadas em estatísticas e opiniões de mestre dos saberes terrenos do que pode e não pode acontecer. Nosso mundo hoje é regido pela razão matemática financeira capitalista neoliberal e propagadora do consumismo. O mundo financeiro é regido por guros economistas que sabe prever onde plantar para poder explorar os frutos, quanto ele vai pesar, quanto vai valer e quanto vai dar de lucro. As previsões para melhor profissão, a melhor dieta, a melhor roupa para ir à festa.

Só sabe fazer previsões quem entende bem do assunto de como as coisas vão acontecer até o futuro, baseado nos cálculos cartesianos e seguindo bem as regras. Porém o dia de amanhã continua nos assustando, principalmente se você e eu virar estatística da porcentagem de pessoas que irá fracassar, por não cumprir a ordem dos que podem ser bem sucedidos e felizes: no amor, na segurança e no sucesso profissional.

E as previsões da saúde? Todo dia se acha algo novo do que pode salvar sua vida e pode matá-lo, principalmente os alimentos cancerígenos e os que podem evitar, exemplo clássico é o humilde ovo de galinha que de vilão se tornou novamente mocinho.

Existem outras previsões que vão de experimentos científicos a mitos em nossa cultura social. Para cada dor temos um remédio e para cada sintoma um médico especialista phd e mestre. Para cada assunto que surja na mídia um especialista formador de opinião, extremamente fundado em sua própria visão, irá falar do assunto juntamente com outros especialistas de outras áreas que vão opinar sobre o mesmo assunto e dar também suas contribuições e visões do mesmo assunto. Bom, ai ficamos discutindo sobre as várias opiniões e a que forem melhor a nós vamos defender, é lógico.

Precisamos de respostas por que muitos de nós andamos preocupados, angustiados e não conseguimos mais dormir direito. Essas respostas têm que ser boas e lógicas para confiarmos, tem de vir a ser boas previsões do tipo – “tranquei a casa direitinho com todos os requisitos agora ninguém poderá entrar”.  As pessoas não querem nem mais casar por não confiar no outro.

Encontramo-nos na era em que cada ser humano acredita ter a resposta certa para todas as perguntas, caso ele não tenha se firmará em quem diz ter. Todas essas respostas e soluções têm escondido algo terrível nesta era do super-homem.

Não tenho nada contra estatísticas, previsões e estudo científicos e até me sirvo de muitos deles como possíveis ferramentas. A ciência em todos os ramos tem seu lugar, mas infelizmente no coração do novo homem tomou um lugar de deus.

Assistimos religiosamente um culto ao ser humano, são várias as formas de culto. Aquilo que cremos é o que nos guia e nos orienta, não cremos mais em soluções espirituais se não forem meramente lógicas e racionais que possamos dominar e manipular, que estejam em nosso domínio. Não cremos em soluções espirituais emocionais de paz, preferimos ficar perturbados incansavelmente pensando em uma solução. Não conseguimos ter intuições por que não nos emocionamos e choramos, preferimos à frieza da ação calculada e essa finja se emocionar. A emoção ficou cativa à diversão onde o prazer é o alvo do individualismo, do aproveitamento e do ganho consumindo objetos, pessoas, animais e outros meios que não possam me trazer problemas.

Assistimos o culto ao ser humano.

Quem precisa de Deus? E se Deus nos incomodar? Se tivermos que depender de Deus? E se Deus não estiver ao nosso serviço? Para que Deus serve?

Mesmos tendo todas as respostas que o ser humano conseguiu encontrar e as soluções que vieram ajudar a humanidade ainda encontramos problemas sem solução. O grande mal do século é a depressão.

A solução não é uma definição deuses humanos para Deus e sim Deus para pequenos humanos, se não continuará apenas deuses humanos sem Deus.

O amanhã continua nos assustando e desconfiamos que todas as previsões possam falhar. Todo divertimento pode causar um vazio maior ainda por que ele só existe para ocupar a mente de quem sabe que este sozinho, mesmo cercado por um bando de gente interesseira em consumir um ao outro. Não há limite para preencher o vazio e todos usam de tudo que possa aplacar a dor da solidão sem solução. Continuam confiando em si mesmas, acreditando que encontraram o caminho sozinho orientadas pela lógica do nada e de coisa nenhuma. O mercado deus se aproveita de quem esta perdido e ilude vendendo soluções caras e inúteis.

Quem poderá preencher o vazio do homem hipermoderno?

Quem dará essa resposta?

“Há caminho que parece reto ao homem, mas no final conduz à morte.” Pv 16:25