por: Rubem Alves

O telefone tocou. Era uma hora da madrugada. Quem poderia ser? O que poderia ser? Atendo. “Pai, acordei você…“ Era a voz da Raquel, minha filha. “Acordou“ – respondi numa mistura de mau humor e apreensão. “Pai, o nosso prefeito, o Toninho, acaba de ser assassinado…“ Para a Raquel o assassinato do prefeito era muito mais que um evento político. O Toninho tinha sido seu professor, na Faculdade de Arquitetura. Ela estava compartilhando comigo a sua dor e ódio pela perda de um amigo, um homem que ela admirava. Meus pensamentos, ainda mergulhados na sonolência, se transformaram num bloco de pedra: pura estupefação e horror.

Senti a dor da perda do Toninho. Ele era um homem manso que sonhava coisas bonitas para Campinas. Numa conversa, faz uns meses, ele me disse que estava imaginando um jeito de realizar, praticamente, aquela coisa de “política e jardinagem“ sobre que eu havia escrito na Folha. E fiquei contente…

Mas o que senti foi muito mais que a dor pela perda de um homem bonito. Já havia passado por experiências semelhantes. Quando meu amigo Elias Abrão, que havia sido secretário de meio ambiente de Curitiba, secretário de educação do estado do Paraná e era deputado, morreu num desastre automobilístico, chorei como nunca havia chorado em toda a minha vida. Mas a dor era diferente. Minha dor pela morte do Elias Abrão foi dor pela morte do Elias Abrão: nada mais. Dor num estado puro. Mas a minha dor pela morte do Toninho está sendo diferente. Porque a forma como ele morreu, assassinado, estabelece entre todos nós uma difícil comunhão… Nosso destino está ligado ao dele. Veio-me à memória um texto sagrado que diz que Jesus, “vendo as multidões, compadeceu-se delas, porque andavam desgarradas e errantes como ovelhas que não têm pastor.“

Ovelhas são animais mansos, sem garras ou chifres, incapazes de se defender. Morrem mansamente nos dentes dos lobos. E dizem que nem mesmo balem. Morrem silenciosamente. Essa é a razão por que é preciso que haja pastores que as protejam. O pastor traz na mão o cajado, arma para a defesa do seu rebanho. E quando tudo está tranquilo, as ovelhas pastando, os lobos mantidos à distância pelo pastor, ele pode se dedicar a tocar a sua flauta. “Ainda quando eu andar pelo vale onde a morte está à espreita, não temerei mal algum; a tua vara e o teu cajado me defendem e consolam…“ (Salmo 23). Um dos corais mais lindos de Bach descreve essa cena: “Mansamente pastam as ovelhas…“

Ah! Que imagem linda! Seria bom que fosse assim! Os homens, as mulheres, os velhos, a crianças – todo mundo “pastando“ pelas ruas da cidade nas noites frescas, sem medo… Que mais poderíamos desejar? A vida pode ser assim, se não houver medo.

E é para isso que pastor existe: para que não haja medo. A ausência do medo é o pré-requisito para a vida boa a que estamos destinados. Isso mesmo! Nisso os místicos, os poetas e a psicanálise estão de acordo: o coração está em busca de um mundo que possa ser amado. Nas palavras de Bachelard “o universo tem, para além de todas as misérias, um destino de felicidade“. Mas essa imagem de felicidade que dava sentido à nossa vida comum se transformou numa bolha de sabão. Os poetas insistem em acreditar, continuam soprado e falando de esperança – mas tão logo se formam, as bolhas flutuam no ar e arrebentam.

O Toninho foi assassinado. O lobo ou os lobos – não sei – estavam à espreita. E ele era como uma ovelha – ia despreocupado, sem medo, inconsciente do perigo, sem pastor que o protegesse. Foi essa imagem, a imagem da fragilidade e do abandono diante dos lobos, que me comoveu. Sinto dor pela morte do Toninho. Mas sinto uma dor maior por nós mesmos, porque o que aconteceu com o Toninho é um símbolo da condição de todos nós: somos ovelhas sem pastor, à mercê dos lobos.

No tempo em que havia pastores os lobos eram trancados em jaulas e as ovelhas pastavam soltas, mansamente. Agora, sem pastores, as ovelhas se trancam em jaulas e os lobos caminham soltos, tranquilamente. O medo nos leva a nos encerrarmos em jaulas. Não nos atrevemos a andar pelas ruas, pelos parques, pelos jardins, pelas praças. Abandonados, deixaram de ser nossa propriedade. Tornaram-se habitação dos lobos que neles ficam à espreita. E eu me pergunto: de que valem todas as coisas boas que se possam produzir numa sociedade se estamos todos, todo o tempo, condenados ao medo?

Alguns explicam a nossa condição como sendo decorrente das estruturas injustas de distribuição de renda: a violência criminosa seria, então, uma simples consequência da violência estrutural econômica, que seria a causa. Duvido. Penso segundo a lógica dos negócios. Era costume dizer: “O crime não compensa“. Isso era verdadeiro num mundo onde os pastores protegiam as ovelhas. Mas a nossa situação é outra. Vale agora uma outra afirmação: “O crime compensa“. E compensa porque o Estado – pastor supremo! – se tornou um pastor sonolento, vagaroso, de cajado mole. O crime compensa por causa da impunidade. O crime se transformou num empreendimento econômico altamente lucrativo. E os que se dedicam ao negócio do crime não são os pobres, as vítimas das estruturas econômicas injustas. Será, por acaso, possível convencer os lobos a comer capim como as ovelhas? Os lobos só são convencidos pela força dos cajados.

A morte do Toninho me dá grande tristeza, Mas o que me dá tristeza maior é a falta de esperança. Por mais que eu pense não consigo imaginar as ovelhas pastando mansamente… Assim, só me resta uma alternativa: trancar-me dentro da segurança precária do meu apartamento e, enquanto escrevo esse artigo, ouvir o coral de Bach. “Mansamente pastam as ovelhas…“

(Folha de S. Paulo, Tendências e Debates, 12/09/2001.)
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