Os braços de Fábio

Na foto, primeiro Simon, Fábio, Bill (eu) e Geraldo - Consagração.

por: Bráulia Ribeiro

(Artigo publicado na Revista Ultimato (Maio-Junho 2010 – Nº324)

Quando Fábio morreu, eu não conseguia pensar em mais nada a não ser em seus braços, na pele que iria se decompor. Pensamento mórbido, eu sei, mas só me lembrava das tatuagens que decoravam os braços daquele homem e no que aconteceria com elas após a morte.

No tempo em que ele se deixou marcar, tatuagens eram símbolo de rebeldia antissistema, uma espécie de selo de não-pertencimento a algo que a geração de Fábio desprezou. “Não pertenço a tudo o que vocês hipocritamente valorizam, às suas teologias frívolas, às coisas mínimas que lhes parecem tão grandes. Me tatuo pra mostrar que meu corpo é um canvas de Cristo, assim como minha mente. Me tatuo para mostrar o que não sou”. Essa paixão pela iconoclastia custou caro a Fábio. Viveu boa parte da vida tentando construir a utopia da igreja que abraça e não exclui. Viveu ignorado pelo mainstream do evangelho brasileiro – talvez reconhecido nos últimos anos como um produto esquizofrênico da geração tribal. Útil, mas ainda assim, estranho. Para alguns, o utilitarismo falava mais alto e a bizarra Caverna de Adulão, fundada por Fábio, se tornava até palatável, porque alcançava a quem as igrejas convencionais não conseguiam alcançar. Para os mais fundamentalistas, ele nunca deixaria de ser um equívoco teológico, uma anormalidade pós-moderna, sincrético e perdido.

Porém, não escrevo sobre Fábio – escrevo sobre nós. A cultura brasileira nos ensina a cordialidade superficial, mas nos deseduca no entender o valor do indivíduo. Nosso valor é condicionado às marcas das roupas que usamos, ao carro que temos, aos figurões que conhecemos. Nosso valor individual também se condiciona à nossa capacidade de conformação. Os que não se conformam, nos perturbam. Em vez de nos enriquecerem, as diferenças são nosso problema. Diferenças teológicas, ideológicas e políticas se tornam a razão da minha guerra com o outro. Ele pensa diferente; portanto, não faz parte, não o reconheço, não existe pra mim.

Até Cristo, aquele que me incluiu num reino que eu não merecia, se torna desculpa para a exclusão. Excluo de meu convívio tudo o que diz respeito ao não-cristão; sua linguagem, sua música, e até ele mesmo. Meu mundo não tem lugar para o diferente.

Esquecemos que a cruz representa o abraço incondicional de Deus a nós, o outro, os estranhos e doentes pecadores. Fábio sabia disso sem ler a teologia de Miroslav Volf. A cruz que abraça os excluídos fez parte de sua vida. O abraço e a ignomínia estão juntos na cruz e, portanto, a rejeição também não lhe era estranha – fez parte de sua jornada, mas nunca se tornou sua teologia.

Quando nos convertemos, por melhor que nos pareça a vida que recebemos, o sabor do sangue está presente. Sangue da difícil renúncia pessoal no dia-a-dia, sangue que nos custa amar aos próximos e aos distantes e perdoar aos que nos ferem. Sangue que nos brota como suor na luta incansável contra o pecado. A morte está presente mesmo na glória da ressurreição. Na alegria de ver mais um salvo se presencia o começo de sua vergonha, agora que ele também caminha abraçado à cruz. Essa cruz nos faz caminhar em perdão constante, ainda que sofrendo a rejeição ao que ela representa. Assim andou Fábio.

Olho a igreja brasileira e seus descaminhos e me pergunto: vamos aprender um dia? Vamos apear do cavalo e galgar a cruz? Vamos nos alegrar porque o Mané de cabelo azul ficou sabendo que existe esperança quando um cara de cabelo comprido e braços tatuados como os dele lhe mostrou esperança em forma de amigo? Vamos entender e abraçar o diferente? Quando é que os Fábios que circulam por nossas igrejas vão nos ser mais caros que o estarmos certos? Quando é que vamos ouvir as ruas e nos amar na multiformidade de nossa expressão cristã brasileira?

–Lembra, Geraldo, daqueles braços marcados? Ninguém mais era como ele.

No meu delírio, Geraldo responde:

– Não pude secar-lhe a pele, mas sequei o olhar. Sabe aquele olhar de perplexidade que ele às vezes tinha quando descobria uma coisa nova? Era como um menino encontrando um doce escondido. Guardo esse olhar comigo.

Também quero esse olhar pra mim. Olhar o diferente com uma surpresa esperançosa. Será que parte de Deus vem dele pra mim?

Vivendo na Superficialidade

por: Joaquimtiago

Estamos experimentado hoje a grande maravilha evolutiva da comunicação. Nunca se viu em toda história uma modernização tão grande e com tanto alcance.

A denominada geração Y nasceu dentro da revolução tecnológica. Alguns dos nossos jovens cresceram com a existência do computador e quando chegaram aos 16 anos já estavam conectados trocando emails.

“GERAÇÃO Y (a partir de 1978) >>> Com o mundo relativamente estável, eles cresceram em uma década de valorização intensa da infância, com internet, computador e educação mais sofisticada que as gerações anteriores. Ganharam autoestima e não se sujeitam a atividades que não fazem sentido em longo prazo. Sabem trabalhar em rede e lidam com autoridades como se eles fossem um colega de turma.” Fonte:http://revistagalileu.globo.com/Revista/Galileu/0,,EDG87165-7943-219,00-GERACAO+Y.html

O mundo encurtou e se tornou achatado, plano segundo o tema de análise no livro de Thomas Friedman – O Mundo é Plano: Uma História Breve do Século XXI, editado em Portugal pela Actual Editora e no Brasil pela Objetiva. O livro analisa o progresso da globalização com particular ênfase no princípio do Século XXI. O autor acredita que o Mundo é plano no sentido em que os campos de competição entre os países desenvolvidos e os países em vias de desenvolvimento estão a ficar nivelados (apontando os exemplos da China e da Índia). O livro também é apontado dez forças niveladoras que atua no grande achatamento e uma delas é o surgimento da World Wide Web como um mundo virtual e o aparecimento do navegador Netscape, em 9 de agosto de 1995.

Entramos na era digital via satélite. Podemos assistir e ficar sabendo em tempo real de acontecimentos mundiais, nacionais, estaduais e locais. Há uma grande pulverização de informações e todo mundo hoje pode tirar fotos ou fazer filmagens digitais e depois postar em rede social da qual faz parte, aquela que ele participa. Estamos diante de uma superexposição de imagens a todo o momento na sociedade do espetáculo. A exposição possibilita hoje pessoas do outro lado do planeta ver, comentar e divulgar e algo simplista fazer fama por alguns momentos como vídeos comentados.

A palavra comunicação deriva do latim communicare, que significa “tornar comum”, “partilhar”, “conferenciar”. A comunicação pressupõe, deste modo, que algo passe do individual ao coletivo, embora não se esgote nesta noção, uma vez que é possível a um ser humano comunicar consigo mesmo.

Toda essa experiência trouxe muitos benefícios em várias áreas do conhecimento, da informação e divulgação. Trouxe também junto e acoplado uma superfície com efeito de conhecimento, com uma imagem que se projeta sem conhecermos sua profundidade. O superficial da projeção se faz principalmente em áreas de comunicação para entretenimento e consumo.

Temos uma comunicação de superfície, a comunicação que se projeta muitas vezes são imagens manipuladas pela ética do mercado.

O que se torna comum em nossa comunicação é o que esta na superfície, o superficial. Quando é interagido e partilhado o coletivo pelos meios pós-modernos de informações cria-se o comum entre todos – a relação superficial, das superficialidades.

Tornamos-nos superficiais à medida que não conseguimos mais enxergar além dessa projeção e não cultivamos mais significados fora das imagens relacionadas.

A linguagem

A linguagem é usada na comunicação desde que o homem é homem e se comunica um com outro através de gestos, outros meios e principalmente da fala. A comunicação é uma necessidade humana e a linguagem sua ferramenta.

Uma boa ferramenta de linguagem é o diálogo. Existem vários maneiras de diálogos. A fala é uma formidável maneira de expressão usada pela linguagem no diálogo.

A evolução da comunicação esta encurtando os diálogos pelas modernas maneiras de linguagem. As mais famosas redes sociais que existem dentro do espaço tecnológico, principalmente na internet têm transformando a comunicação da linguagem em algo também superficial.

Assistimos as frases ficarem curtas e sem significados. São os famosos “scrap” que em inglês é pedaço, fraguemento e agora o twitter que é um mini blog, mini diário para ser usados com 144 palavras apenas, vídeos de 10 segundos no youtub, MSN e mensagens de celulares.

Outro fator preponderante da grande revolução tecnológica é que não temos mais tempo disponível para longos diálogos. Além do ativismo que nos é imposto pela usina do entretenimento restas nos pouco tempo para poder sentar em família para conversarmos sobre a vida e história. Vivemos com síndrome da falta de tempo.

Estamos em contato com todo mundo, com o mundo inteiro, mas não conhecemos ninguém e pouquíssimos conhece a si mesmo. A maioria não consegue falar verdadeiramente um com o outro.

Assim, educados em tamanha superficialidade encurtamos o dialogo submetendo-o a brincadeiras e a bobagens de uns com os outros.

Mantemos distâncias uns dos outros dentro da rede e vai-se comunicando com imagens exploradas em todos os sentidos, é a superexposição superficial e o dialogo cada vez mais vazio. A grande maioria também não tem tempo para aprofundar em nada.

A linguagem projetada leva as pessoas a não se conhecerem além do que é superficial, além do que a superfície projeta. O que a superfície projeta é um ser profundamente vazio, um ser necessidade de conteúdo, mas como buscá-lo se ele já não faz mais falta nem para o diálogo e nem para os relacionamentos.

Não há mais como questionar o que se vê hoje em dia, esse poder de questionamento esta sendo apagado e passou-se acreditar em quase tudo que é exposto, assim passou-se a acreditar estar sendo bem informado pelos meios de comunicação. Acreditamos que somos ativos na sociedade o que na realidade é uma passividade patológica sem poder de análise. Em muitos casos somos impessoais com o mundo e com o próprio ser.

Alheios ao outro e a si não se enxerga além do superficial, além da superfície. O único significado existente é a projeção comunicada fala curta e a imagem retocada.

Relacionamentos fora da superficialidade

Novamente preciso falar que não sou contra a evolução da comunicação, mas como ela se tornou o processo comum de superficialidade nos relacionamentos. O que não deveríamos perder mesmo é a consciência que precisamos ter um do outro, principalmente na família.

O berço de todos nossos relacionamentos se encontra na família e a mesma não pode viver com um rosto superficial apenas, mas com conteúdo existencial significativo para toda a vida em todas as vidas.

Um dos grandes benefícios e ferramentas que as famílias têm perdido hoje em dia para vencer esse desafio de se manter como família é o diálogo. A família contemporânea tem enfrentado e convivido com toda essa mudança e evolução e tem sofrido mudanças em seus convívios.

Geralmente uma família é formada de pessoas com idades diferentes e que vem de gerações com pensamentos mudados sobre determinados assuntos, uns polêmicos e outros fáceis de entender. O mundo mudou rápido nestes últimos anos e tem mudado aceleradamente formando várias culturas dentro do mesmo lar, dentro do mesmo clã.

Pensamentos diferentes creio não ser o maior problema, mesmo quando se é acometido por uma grande avalanche cultural, uma pluralidade de culturas e pensamentos espalhados por todo mundo e todo mundo tem acesso e pode experimentar. E creio que todos podem conviver dentro do mesmo lar, dentro do mesmo circulo de pessoas. Pode sim se houver diálogo e se esse mesmo não for apenas superficial como um scrap, uma mensagem rápida e sem tempo.

Deveríamos construir novamente os diálogos que fizeram parte de um passado remoto quando todos se reuniam a mesa para ceia, para comunhão e partir do pão. Deveríamos ter tempo novamente para ouvir as histórias que os mais velhos têm para contar, de como enfrentou a vida, de como sobreviveu nos tempo que passaram e o que realmente importa nessa vida.

Deveríamos ter uma linguagem mais simples para poder falarmos com os pais quando perguntam sobre por que esse seu gosto, essa sua escolha, esse seu namorado (a). Os pais deveriam respeitar mais as escolhas dos filhos e não terem medo de perguntar, porque o filho vai ter a coragem e simplicidade para responder e essa reposta vai criar um vinculo de amizade e cumplicidade fora do comum, fora da casca superficial da roupa ou tatuagem.

Deveríamos como família ter sempre um encontro pra brincar um jogo que não fosse eletrônico e comer juntas a mesma comida e depois assentar e ficar contando casos, histórias sem maldade, sem moralismo uns com os outros, sem inveja, apenas para preencher a vida do outro com uma boa participação de vida.

Antes de falarmos mal do irmão e inventar histórias superficiais seria preciso ouvir, para saber por que ele é assim, por que age dessa forma, aproximar e vencer o medo do espaço criado entre as relações. Deve-se mudar a linguagem da afronta para uma linguagem do amor e da verdade. Parar de ficar mandando recados e piadinhas e saber sentar em um lugar e poder abrir os sentimentos com perdão, limite e confiança.

É pela falta que faz um bom diálogo que muitos vão buscar outras famílias, outros círculos de confiança que da crédito aos sentimentos e desesperança. Um grupo de amigos, uma tribo que adquire os mesmo hábitos e um líder forte que determina a lei. O triste é quando todos da mesma tribo sentem o mesmo e começam usar drogas licitas e ilícitas.

Toda criança nasce egocêntrica como se o mundo fosse ele ou o que gira ao seu redor, criança não tem consciência formada, esta em formação, tem apenas desejos e instintos. O ego começa a sua formação quando separações acontecem. O ego faz avaliações dos instintos e toma decisões se pode ou não fazer coco no chão, se pode ou não enfiar o dedo na tomada elétrica. Mas para tal tem que ser ensinadas e muitas vezes repetidas vezes.

É na família onde tudo começa, é onde aprenderemos a lidar com nossos instintos e a cuidar uns dos outros. A família nos ensina os primeiros limites e, a saber lidar com os interesses. É onde aprendemos sobre conseqüências, respeito, verdade e felicidade. Aprendemos a relacionar de fato e por ser assim não pode ser superficial, principalmente na comunicação.

Quem quer e esta numa família não pode agir com superficialidade, não dar para ser família sem conteúdo que possa transformar cada um a cada dia.

Todos fazem parte de uma família, como filho, Pai ou parente, não seja superficial no ser família! Aprenda valores, princípios e um modo de vida que possa mudar tanto sua vida como a dos outros.