Por Joaquim Tiago Bill

Devido ao aumento da maldade, o amor de muitos esfriará, (MT 24.12)

O que deveria vir a ser o pós-cristianismo? Para haver um entendimento claro e mais seguro devemos identificar primeiro o que é o cristianismo, como surgiu e o que caracteriza como uma ação humana e cultural. Jesus Cristo não fundou o cristianismo, pessoas que pretendiam seguir os ensinamentos que o fizeram.
No comentado artigo “Onde esta a verdadeira crise da igreja”, Leonardo Boff explica que “o poder que estrutura a instituição-igreja foi se constituindo a partir do ano 325 com Imperador Constantino e oficialmente instaurado em 392, quando Teodósio, o Grande (+395) impôs o cristianismo como única religião do Estado” (Boff, 2010) e lemos religião aqui como a maior força cultural de um povo, a maneira como lê e enxergar a vida e o mundo.
Segundo a história que nos conta durante anos o mundo antigo foi cristianizado com a força de todo poder papal romano, através de ações como: cruzadas e o absolutismo do conhecimento. O mundo antigo e o seu poder político religioso até o renascimento e o iluminismo ficaram sobre o domínio da igreja católica e seus reis, após ele começa a ser questionado. No séc. XV e XVI aconteceu a reforma protestante e começa um novo modelo de cristianismo institucional baseado principalmente na bondade de Deus e a fé contra as indulgências católicas. Aconteceu também o acesso a leitura bíblica através da invenção da imprensa por Gutenberg com a tradução da mesma por Lutero.
Numa guerra entre protestantes e católicos de uma Europa cristã junto com o advento do mercantilismo e a burguesia, revoluções entre o poder transformaram-se em muitos interesses. Entre esses interesses havia sempre os comerciais e junto a eles ouve também interesses religiosos por ambas as religiões, hora como expansão comercial hora como expansão colonial e a necessidade de Deus como testemunha, protetor e abalizador dessas atitudes. Assim de forma bem resumida o cristianismo se estendeu pelo mundo e o próprio começou a ser cristianizado muitas vezes por forças e outras por violência.
O mundo não era mais o mesmo e depois do avanço filosófico, científico, tecnológico e até teológico o mundo chamado cristão só tinha do Cristo, o Nazareno da Judéia um nominalismo e um simulacro horrível (s. m. 1. Aparência, imitação. 2. Vã representação, aspecto exterior e enganador. 3. Visão sem realidade; espectro, fantasma.). Mesmo neste mundo desfocado do Mestre de Nazaré, acredito que sempre existiu os “sete mil” que não se dobrarão nunca a outros deuses, os que sustentavam a vida de Cristo em seus corações – avivalistas, missionários, anônimos e pessoas de fé cuja aos olhos de uma religião foram passados muitas vezes como hereges e dissimulados, loucos e revolucionários, pessoas que ainda a terra nunca foi digna.
Esse cristianismo foi duramente criticado. Um artigo foi publicado na Revista Ultimato com título: “O inventor do pós-cristianismo” – nele há várias constatações feitas pela Folha de São Paulo (22 de julho de 2010), uma delas é – “A grande maioria dos ocidentais não chegou ao ponto de negar a existência de Deus – e dificilmente chegará -, mas relegou o sagrado a uma espécie de limbo” – os missiologos protestante pretendem uma reevangelização voltando-se a estaca zero e agora creio com auxílio da antropologia cultural, respeitando as tradições culturais, algo que não ocorreu na cristianização dos primeiros missionários por ser uma ciência do séc. 19. Outra constatação é a preocupação do papa Bento 16 diante da crescente secularização e o risco do desaparecimento de Deus do mundo. E uma das citações mais contundentes é a do Francês Michel Onfray, autor de uma obra sobre o Nietzsche e o mesmo chegou a conclusão que o mesmo é o inventor do pós-cristianismo, pois foi o primeiro a propor – “um pensamento vivo e concreto para viver e agir em um mundo sem Deus” – isso feito no séc. 19 hoje seguindo o padrão estabelecido encontramos os ateus radicais como Richard Dawkins, Chistopher Hitchens, Sam Harris, dizendo – “a religião é uma ilusão que precisa ser erradicada”. (ULTIMATO, set-out, 2010).
Voltando ao artigo do Leonardo Boff sobre a crise da igreja o mesmo conclui que – “Depois de 40 anos de continuado estudo a meditação sobre a igreja (meu campo de especialização), suspeito que chegue o momento crucial para ela: ou corajosamente muda e assim encontra seu lugar no mundo moderno e metaboliza o processo acelerado de globalização e ai tem muito a dizer, ou se condena como uma seita ocidental, cada vez mais irrelevante e esvaziada de fiéis” – leia-se aqui igreja católica, mas vejo que o protestantismo tradicional, principalmente de origem ocidental européia e a tentativa dissimulada do neo-pentecostalismo estão vivendo todos a mesma crise, na primeira situação um nominalismo dominante e na segunda uma teologia interesseira de sobrevivência junto com ao capitalismo selvagem e assim todos estão em uma cultura cristianizada, porém sem Cristo de fato.
Somos uma cultura cristã, temos uma cultura cristianizada, todos são cristão, reis e rainhas, presidentes e candidatos a presidência, generais, nações cristãs que dominam o mundo e fazem explorações junto com seus governantes, artistas e padres pedófilos, pastores empresários e ladrões, empresários de multinacionais que exploram seus funcionários, traficantes e viciados. Em quase todos os casos o discurso nunca combina com a prática. A igreja junto com cristianismo cultural esta entrando em uma crise profunda.

O que faltou?

Vivemos em um país com o maior índice de igrejas abertas e funcionando e com índices alarmantes na área de violência, roubos, mortes, acidentes de trânsito por imprudência, e um grande número dos chamados desviados.

Para que serve nosso cristianismo?

A nossa geração não quer mais esse cristianismo ou o quer apenas como moda e entretenimento, como fórmula de se dar bem na vida, não se importa mais com a igreja, até acredita em Deus como no amigo que compartilha um baseado e a religião é tão importante como ter um time de futebol para torcer. Ideologia são vários e cada um faz a sua em mundo plural onde todos querem viver pelo prazer num relativo convívio com as diferenças, as relações são relativas.
Não adianta mais apenas falarmos que somos cristãos, que freqüentamos uma igreja ou que achamos o evangelho bonito, esse cristianismo cultural esta chegando ao seu fim junto com uma igreja que esta vivendo uma profunda crise de identidade, de existência. Para que ser cristão nesses dias? Para serve uma igreja nesses dias? Que relevância temos com nossa cultura cristã? O discurso religioso não gera mais nada a não ser religião e o outro discurso na parte extrema é só das necessidades assistidas.

Devemos fazer a última pergunta:

Quem é Jesus Cristo para nós e o que é fazer discípulo de Cristo? (Gl 4.19)
Não querer o cristianismo e assistir a sua morte numa cultura cada vez mais secular requer dos que crêem em Jesus Cristo cada vez mais prática e atitude e não só para imitá-lo mas aceitar a sua condição de Cruz.
Cristo em nós é a esperança de que teremos parte na glória (Cl 1.27), não basta mais mudar de religião, de costumes, de estratégia, de moda, de nome ou qualquer outra coisa – temos que mudar de NATUREZA, essa é a nossa salvação.
É um mandamento para formar pessoas que cheguem a ser como Jesus Cristo.
Os pós nesse caso cristianismo não querem outra religião, mas Cristo ainda é a reposta e só será feito com a nossa vida.
Referência bibliográfica dos textos citados:
ULTIAMTO, Revista – Setembro-Outubro, 2010 – Ed. Ultimato
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3 comentários sobre “O pós-cristianismo e os discípulos de Cristo

  1. Excelente texto! Vem de encontro às minhas impressões e meus sentimentos sobre a igreja, embora me falte autoridade e conhecimento. Há mais pessoas pensando assim?

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  2. Reli hoje este texto, e só veio confirmar o que venho sentindo, as mudanças que vêm acontecendo em mim, embora, como já disse, nao tenho autoridade, e nem o conhecimento profundo que me autorize a falar, a publicar, a exortar. Só sei que tudo isso me toca muito, eu já errei muito, já entendi tudo errado, já fui religiosa, já fui falsa, já desisti de crer, mas agora eu quero um cristianismo, ou pós-cristianismo que seja verdadeiro, honesto, e esse mover dentro de mim é um caminho definitivamente sem retorno. Ainda não achei meu lugar. Mas estou em busca.

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